6 de Janeiro de 2008

Nabuco, Joaquim Nabuco


Nabuco é um bom exemplo de como é possível conciliar vida política e verdadeiro engajamento na atividade intelectual?


Na verdade, Nabuco pertence a um tempo em que esses dois mundos ainda não tinham se separado. No século 19, em toda a parte, política e vida intelectual eram dois lados da mesma carreira. Tanto assim que grandes políticos europeus escreviam ensaios de interpretação e, mesmo, caso do primeiro-ministro inglês Disraeli, literatura. O mesmo ocorria dentre nós. José de Alencar é o melhor exemplo de político bem-sucedido e romancista de sucesso. No fim do século 19, começa uma especialização da atividade intelectual que, em muitas partes, passa a ser exercida como uma carreira própria, associada cada vez mais à docência. A política, de seu lado, também gradualmente constitui uma carreira profissional, com exigências próprias. Nabuco viveu justamente esse momento de transição, que obrigou muitos membros de sua geração a optar por um de dois caminhos. Ele próprio não foi político e intelectual simultaneamente. A maior parte de seus escritos foi produzida já na República, quando ele, que se manteve monarquista, estava alijado da política militante.


Quando exaltou o livro Minha Formação, de Nabuco, em 2000, Caetano Veloso partiu daquela análise sobre a cultura e o povo brasileiros para falar, por exemplo, da incapacidade do cidadão de obedecer às leis de trânsito. Qual a melhor leitura a se fazer hoje dos escritos de Nabuco?


Acho que há dois Nabucos a serem lidos. Há o autor de O Abolicionismo e de outros panfletos políticos dos anos 1880. Esses textos são clamores por reformas profundas - na estrutura produtiva, na organização do Estado e, mesmo, nos costumes - e explicações muito persuasivas sobre a necessidade delas. E há os livros da década de 1890 em diante, donde se incluem a biografia que fez do pai, Um Estadista do Império, e a autobiografia Minha Formação. Neles, Nabuco evoca e enaltece a tradição monárquica e aristocrática. São textos nostálgicos, de reação à sociedade republicana. Os três livros são notáveis tanto no estilo quanto na análise - para dizer uma única palavra: excelentes. Mas apontam em direções diferentes, um para a modernização, os outros dois para a conservação. A escolha da melhor leitura vai depender, portanto, dos próprios pendores do leitor.



(DBL)

1 comentários:

O Debatedouro ::: ISSN 1678 6637 disse...

Nabuco era um precursor do Tropicalismo, haja vista o ministro-artista Gilberto Gil e seus pendores simultâneos por ACM e pela emancipação negra...

(CFG)