Adriano e Ronaldo são os grandes objetos de desejo do futebol brasileiro. O primeiro veio ser "colocado nos trilhos" no REFFIS, um dos centros de treinamento do São Paulo e acabou emprestado até a Libertadores da América. O outro veio se recuperar de uma contusão no Rio e está sendo sondado pelo Flamengo para a disputa do mesmo torneio sul (e centro) americano.
Não é irônico que a Internazionale pretenda "colocar nos eixos" um jogador brasileiro enviando-o ao Brasil? Não é sintomático que um jogador brasileiro posto no ostracismo no Milan por questões médicas e técnicas venha se recuperar no Brasil justamente no reveillón?
O futebol já foi empregado como metáfora da Globalização. O futebol já foi empregado como metáfora da própria vida, por técnicos irlandeses e por seres como Nélson Rodrigues. Ironias da vida e da globalização são trazidas à baila pelo nosso querido esporte bretão mas brasileiro.
Adriano e Ronaldo corporificam processos de construção de identidade em escala global. O Brasil como celeiro de craques e terra das maravilhas, ambos indóceis e geniosos, é ao mesmo tempo a personificação renascentista do gênio espontâneo (muito cara aos homens de Milão) quanto o oposto do que Buarque de Hollanda nos apontara como sendo a modernidade européia. A sedução da selvageria (bem como marchands deslumbrados e esportistas prima donnas) está impressa em episódios que são construídos pelos jogadores e seus respectivos clubes, mas respaldados por italianos, brasileiros e meus amigos da Rede Globo, papo de botequim, fofoca de Orkut. E a mitologia tecnocrática também funciona dos dois lados do Mare Nostrum - a Internazionale "horrorizada" com o comportamento selvagem de Adriano na casta noite milanesa, o Milan "ultrajado" pela escapulida de Ronaldo rumo ao reveillón, devidamente saldada com uma apresentação antecipada em...Dubai.
Querelas locais são resolvidas na arena global. O Rei de Copas e o Príncipe da Lombardia medem forças com seus braziliani nos mercados da Eurásia; o São Paulo Futebol Clube (bem como a municipalidade que lhe serve de nome) reforça sua identidade cinzenta e sóbria, Weber transplantado para tristes trópicos, frente à carioquice indisciplinada, à indolência malemolente de Adriano, o imperador que veio da favela.
Basta de elocubrações filosóficas. Sem cosmopolitismo intensamente superficial nem tampouco empedernida paroquialidade epistêmica, craque é craque desde o berço, seja aqui, na Itália, em Marte.
Ronaldo foi craque desde a primeira vez que pisou numa quadra de salão e continuou a sê-lo com 15 anos no São Cristóvão, com 16 no Cruzeiro, em seguida na Holanda, Espanha, Itália...O fenômeno do esporte global teve seus joelhos adequados, já aos 17, a seus hercúleos trabalhos futuros. Sacrificado na pira futebolista em cadeia global em 1998, encontraria forças (e gols) para retornar triunfal em 2002. No mais, não teve como escolher a própria decadência - em 2006, apenas fez número (3) e foi aposentado compulsoriamente da seleção braziliana. Sucumbiu ao peso de ser um fenômeno.
Já Adriano...É irônico ver os são-paulinos que desprezavam o espigado, desajeitado centroavante flamenguista, objeto de riso e deboche por anos a fio, tratando-o como uma jóia rara, respaldada pelos gramados impecáveis do San Siro, pensando na artilharia da Libertadores. É caipirice que nunca embota, direto da Bota. Os meniscos que Ronaldo teve de si extraídos a fórceps para que continuasse a ser o bólido que nenhuma defesa segurava em 1995 foram simbolicamente transplantados para o discreto Adriano, que se tornou uma máquina de fazer gols após intenso trabalho físico além-mar. O estilo físico de futebol que consagrou Adriano é o mesmo contra o qual Ronaldo se embateu na maior parte de sua carreira e lhe custou, antes mesmo da fatura, os joelhos. Não obstante, é Adriano que se tornou símbolo do jogador "acabado", deprimido e farrista, revertedor de expectativas em escala nacional e global. A luz fugidia de Adriano se esvaiu mais rapidamente, mesmo com os milagres da tecnocracia, do que a de Ronaldo.
Dois artefatos globais se reencontram em seu ponto de partida. O fenômeno natural e o fenômeno construído - ambos vorazmente incorporados, sugados, mastigados, cuspidos e reciclados ao futebol da Globalização ou à globalização-futebol. Ronaldo, o flamenguista de coração que não tinha como pagar sua passagem para a Gávea. Adriano, o ex-flamenguista que pouco apreço teve no mais querido. A bola que estufa a rede é a mesma. A ironia, essa cada um com a sua. A Libertadores? Está mais para o Boca Juniors. A vida como ela é, essa continua rolando. (CFG)
Não é irônico que a Internazionale pretenda "colocar nos eixos" um jogador brasileiro enviando-o ao Brasil? Não é sintomático que um jogador brasileiro posto no ostracismo no Milan por questões médicas e técnicas venha se recuperar no Brasil justamente no reveillón?
O futebol já foi empregado como metáfora da Globalização. O futebol já foi empregado como metáfora da própria vida, por técnicos irlandeses e por seres como Nélson Rodrigues. Ironias da vida e da globalização são trazidas à baila pelo nosso querido esporte bretão mas brasileiro.
Adriano e Ronaldo corporificam processos de construção de identidade em escala global. O Brasil como celeiro de craques e terra das maravilhas, ambos indóceis e geniosos, é ao mesmo tempo a personificação renascentista do gênio espontâneo (muito cara aos homens de Milão) quanto o oposto do que Buarque de Hollanda nos apontara como sendo a modernidade européia. A sedução da selvageria (bem como marchands deslumbrados e esportistas prima donnas) está impressa em episódios que são construídos pelos jogadores e seus respectivos clubes, mas respaldados por italianos, brasileiros e meus amigos da Rede Globo, papo de botequim, fofoca de Orkut. E a mitologia tecnocrática também funciona dos dois lados do Mare Nostrum - a Internazionale "horrorizada" com o comportamento selvagem de Adriano na casta noite milanesa, o Milan "ultrajado" pela escapulida de Ronaldo rumo ao reveillón, devidamente saldada com uma apresentação antecipada em...Dubai.
Querelas locais são resolvidas na arena global. O Rei de Copas e o Príncipe da Lombardia medem forças com seus braziliani nos mercados da Eurásia; o São Paulo Futebol Clube (bem como a municipalidade que lhe serve de nome) reforça sua identidade cinzenta e sóbria, Weber transplantado para tristes trópicos, frente à carioquice indisciplinada, à indolência malemolente de Adriano, o imperador que veio da favela.
Basta de elocubrações filosóficas. Sem cosmopolitismo intensamente superficial nem tampouco empedernida paroquialidade epistêmica, craque é craque desde o berço, seja aqui, na Itália, em Marte.
Ronaldo foi craque desde a primeira vez que pisou numa quadra de salão e continuou a sê-lo com 15 anos no São Cristóvão, com 16 no Cruzeiro, em seguida na Holanda, Espanha, Itália...O fenômeno do esporte global teve seus joelhos adequados, já aos 17, a seus hercúleos trabalhos futuros. Sacrificado na pira futebolista em cadeia global em 1998, encontraria forças (e gols) para retornar triunfal em 2002. No mais, não teve como escolher a própria decadência - em 2006, apenas fez número (3) e foi aposentado compulsoriamente da seleção braziliana. Sucumbiu ao peso de ser um fenômeno.
Já Adriano...É irônico ver os são-paulinos que desprezavam o espigado, desajeitado centroavante flamenguista, objeto de riso e deboche por anos a fio, tratando-o como uma jóia rara, respaldada pelos gramados impecáveis do San Siro, pensando na artilharia da Libertadores. É caipirice que nunca embota, direto da Bota. Os meniscos que Ronaldo teve de si extraídos a fórceps para que continuasse a ser o bólido que nenhuma defesa segurava em 1995 foram simbolicamente transplantados para o discreto Adriano, que se tornou uma máquina de fazer gols após intenso trabalho físico além-mar. O estilo físico de futebol que consagrou Adriano é o mesmo contra o qual Ronaldo se embateu na maior parte de sua carreira e lhe custou, antes mesmo da fatura, os joelhos. Não obstante, é Adriano que se tornou símbolo do jogador "acabado", deprimido e farrista, revertedor de expectativas em escala nacional e global. A luz fugidia de Adriano se esvaiu mais rapidamente, mesmo com os milagres da tecnocracia, do que a de Ronaldo.
Dois artefatos globais se reencontram em seu ponto de partida. O fenômeno natural e o fenômeno construído - ambos vorazmente incorporados, sugados, mastigados, cuspidos e reciclados ao futebol da Globalização ou à globalização-futebol. Ronaldo, o flamenguista de coração que não tinha como pagar sua passagem para a Gávea. Adriano, o ex-flamenguista que pouco apreço teve no mais querido. A bola que estufa a rede é a mesma. A ironia, essa cada um com a sua. A Libertadores? Está mais para o Boca Juniors. A vida como ela é, essa continua rolando. (CFG)
1 comentários:
tá mais para o Boca, é? sei não...
apostaria as minhas fichas no Cerro Porteño! ;-)
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